A primeira edição do Granfondo Ourém-Fátima teve cerca de 1400 participantes, mas a história começou muito antes da partida. Alice Neves foi uma das impulsionadoras da realização da prova e esteve envolvida desde a primeira ideia até à concretização de um evento que trouxe ao concelho centenas de ciclistas de todo o país. Em entrevista ao Derby, conta como tudo começou, revela os bastidores do projeto e não esconde a emoção por ter conseguido concretizar algo em que muitos não acreditavam.
Derby — Onde nasceu a ideia de trazer um Granfondo para Ourém?
Alice Neves — A ideia vem desde o dia em que fiz o meu primeiro Granfondo. Quando ganhei o voucher para ir fazer a Clássica Douro Internacional. Não fazia ideia do que é que era um Granfondo e tinha comprado bicicleta há uns seis meses. Ganhei o voucher num giveaway do Instagram e caí lá de paraquedas, sozinha, só levei a minha mãe.
Fui daqui para o Douro, cinco horas de caminho para me meter ali naquelas estradas. Saí da última box porque os vouchers, normalmente, quando são ofertas, são para as boxes do fundo. Fiz o caminho todo sozinha, mal sabia andar de bicicleta. Mas fui o caminho todo a pensar: “Porque é que Ourém não tem um Granfondo?” E depois, a partir daí, aquilo começou a ficar na ideia: “Como é que podemos fazer?” Entretanto, comecei a fazer outros, inscrevi-me no Serra d’Ossa um ou dois meses depois.
A partir daí, fui estando mais presente nesse tipo de eventos e aquela ideia foi sempre ficando: “O que é preciso para conseguir trazermos um Granfondo a Ourém?” Foi um bocadinho a partir daí que comecei a trabalhar no assunto e depois preparei uma proposta, preparei percurso para apresentar.
Derby — Como é que essa ideia começou a ganhar forma até chegar à concretização do Granfondo Ourém-Fátima?
Alice Neves — Entretanto, organizei a Cycling Trip. Ali fiz contactos muito interessantes. Um deles foi o de um capitão da GNR que costuma trabalhar com o Manuel Zeferino [responsável pela Bikeservice], que fazia muitas vezes a gestão do policiamento no EuroBec. Liguei ao Zeferino, fiz a proposta, marcámos reunião e a partir daí fomos trabalhando até conseguir.
Derby — O que sentiu quando viu finalmente o evento acontecer e cerca de 1400 participantes nas estradas do concelho?
Alice Neves — Ver tudo isto a acontecer foi uma vitória muito grande para mim. Fico muito, muito emocionada por saber que fiz parte. Uma primeira edição com 1400 participantes presentes, com feedbacks… não têm noção da quantidade de mensagens que eu tenho recebido, malta a agradecer, a dizer que gostaram muito. Até estou a chorar. É emocionalmente difícil mas muito gratificante gerir tudo o que está a acontecer. Depois houve muitas coisas a acontecer em simultâneo também.
Foi a criação do clube, a Estrela Desportiva Ouriense, com a nossa equipa de ciclismo, a Orion Cycling Team. Termos 21 ciclistas vestidos com as nossas cores, de um clube que nasceu há menos de um ano, termos vários no pódio, termos tido uma presença tão importante neste Granfondo, é muito importante para mim.
É um evento do qual nunca vou esquecer, assim como a Cycling Trip. Estou muito contente por ter corrido tudo bem e por provavelmente irmos ter mais um Granfondo no próximo ano.
Derby — Além de ter estado na génese deste evento e de ter ajudado a desenhar os percursos, também esteve do outro lado, como ciclista, na ‘ótica do utilizador’. Que Granfondo encontrou na estrada?
Alice Neves — Para mim, em termos de prova, foi difícil, porque nem para mim fui boa, não é? Quando fiz os percursos, especialmente por conhecer mais ou menos o presidente da Câmara e sentir aquilo que se pretendia, tentei manter o percurso grande todo dentro do concelho de Ourém, o que foi muito difícil. Tive que brincar muito com os limites do concelho e estamos num concelho que tem muita montanha, é muito quebra-pernas.
Portanto, não é um percurso altamente rolante, é um percurso rápido, mas que acumula bastante altimetria. É um percurso duro e difícil para mim também, assim como foi para os outros.
E os Granfondos da BikeService são muito competitivos. Digamos que é um grupo diferente, com um nível mais elevado em relação a outros eventos deste género.
Derby — Houve quem lhe dissesse que não valia a pena tentar. Isso torna a concretização deste projeto ainda mais especial?
Alice Neves — Acho que isto teve ainda um impacto maior para mim por ter tido tanta gente a dizer-me que não ia conseguir levar isto para a frente, que isto não ia acontecer. Quando comecei a falar com as pessoas, no início da ideia de propor um Granfondo para Ourém, eu lembro-me de ouvir algo do género: “Alice, não percas tempo, isso não vai acontecer, o presidente não vai querer, não vale a pena estares a chatear-te com isso. Esquece isso. Achas mesmo que a empresa precisa que sejas tu a organizar, a fazer uma proposta para um evento? Se eles quiserem vir, vêm.” Recebi muito feedbacks nesse sentido…
Estou muito orgulhosa por ter seguido o meu instinto e por ter posto a minha persistência, a minha alta persistência, ou teimosia, como queiram chamar, em prática e ter dado positivo.
E acho que é uma prova de que as pessoas têm que, às vezes, por mais descabida que a ideia possa parecer, por que não tentar? As pessoas perguntam: “Então, e se não der certo?” Mas a questão que eu deixo é: “E se der? E se der certo?!”



























