Guerra à Porta é um trabalho publicado na edição de 6 de março do Notícias de Ourém, sustentado no testemunho de quem está a viver por dentro o conflito no Médio Oriente, espoletado pela união de forças entre Estados Unidos e Israel contra o regime do Irão.

Estados Unidos da América e Israel escalaram o conflito com o Irão, lançando uma ofensiva que embrulhou todo o Médio Oriente num cenário de alta tensão. Entre ofensivas e contraofensivas, contaram-se mais de mil mortos, só nos primeiros cinco dias de um combate que rebentou a 28 de fevereiro, após o ataque lançado contra o regime iraniano.
A maioria dos óbitos foram declarados pelo Ministério da Saúde do Irão e confirmados por agências internacionais de notícias. Mas o conflito extravasou fronteiras, colocando em causa a segurança de vários países da região e milhões dos seus habitantes.

Israel está naturalmente na mira do extenso arsenal iraniano. E é lá que se encontra Jéssica Pastilha, a trabalhar na Terra Santa desde 2024. O contacto com o Notícias de Ourém aconteceu com relativa facilidade, apesar de ter sido condicionado no tempo pelo constante ressoar das sirenes.
A partir de Ashdod, no sul do país, Jéssica garante que “o cenário é mais assustador para quem assiste na tv do que propriamente para quem o vive” no terreno. “A situação é preocupante, mas ainda não senti um quinto daquilo que senti no ano passado”, garante, a propósito das memórias que ainda guarda da Guerra do Doze Dias, o conflito armado que opõs Israel e Irão, entre 13 e 24 de junho de 2025.
Repatriamento não é opção. Jéssica garante que ainda se sente em segurança e por isso optou por não acionar o plano de escape: “Ainda acredito que não há motivo para deixar o país. Não significa que não mude de ideias nas próximas horas, mas, por enquanto, sinto-me em segurança, apesar de toda esta tensão.”

A ‘fuga’ passaria sempre pelo auxílio prestado pela Embaixada de Portugal em Israel. “Estou em contacto com eles e sei que posso regressar a casa quando quiser, desde que o espaço aéreo continue aberto. No entanto, continuo a achar que tudo vai resolver-se em breve e que não será necessário deixar o país.”
Bem adaptada à realidade que a envolve, Jéssica recusa fechar[1]numa bolha, dando primazia ao convívio com os locais, procurando absorver a cultura e desfrutar desta experiência. Ano e meio de residência, três clubes representados e três cidades depois, está bem ciente da mentalidade israelita. “Nós ficamos muito impressionados com tudo isto, mas eles crescem com esta realidade e entendem a guerra com o Irão como uma forma de garantir o seu próprio futuro. Aqui vive-se constantemente sob ameaça… Os israelitas acreditam que podem conquistar vários anos de paz, se conseguirem derrubar o regime iraniano.”
Jéssica não é a única jogadora estrangeira no plantel do Ashdod Panthers. Daiane Godói, jogadora brasileira que também vestiu a camisola do Atlético, é outra das internacionais ao serviço deste emblema da Liga Feminina de Israel.
Estado de Emergência. “A competição está suspensa e os treinos também”, conta-nos Jéssica, confessando que a situação a transporta para outra conjuntura inesquecível. “O Governo de Israel declarou Estado de Emergência, o que leva a que o campeonato tenha sido interrompido e que praticamente todo o comércio e serviços estejam encerrados. Estamos numa situação muito semelhante à que vivemos durante a pandemia de Covid-19, em Portugal. Está praticamente tudo fechado. Os restaurantes são raras exceções, mas só funcionam em ‘take away’…”, conta-nos, lamentando que os ginásios também estejam encerrados, situação que terá natural impacto no rendimento desportivo das atletas e das equipas, quando houver luz verde para regressar à atividade.

Já esta quinta-feira, dia 5, Jéssica contou ao Derby que a suspensão dos treinos foi levantada e o regresso ao trabalho acontece dentro em breve. “Já levantaram o Estado de Emergência. Continuamos com algumas restrições, mas nada como antes e já recebemos aprovação para começar a treinar. Domingo, já treinamos.”
Até lá, vai tentando tranquilizar a família, privilegiando o contacto para garantir que esta não se deixa influenciar, nem atemorizar pelas imagens difundidas pelas televisões internacionais.
“A minha família está relativamente tranquila, tirando a minha avó, claro. Por ela, eu já estava em Portugal. Vou tentando explicar-lhes o que está a acontecer e aquilo que estou a viver aqui. Ainda há uns dias, vi na tv imagens de Tel Aviv que davam a ideia de que a cidade estava a implodir. Não é bem assim. É óbvio que sentimos os mísseis a sobrevoar e as baterias antiaéreas a disparar para suster os ataques, mas continuo a sentir-me em segurança”, reforça.

Choque e tranquilidade. A trabalhar na Arábia Saudita desde janeiro, Isabel Osório está em Al Ula, relativamente perto de Medina e aparentemente longe das zonas de maior tensão. “Estou do lado oposto ao Golfo Pérsico, mais próxima do Mar Vermelho. As imagens que vejo na tv são chocantes, mas aqui está super tranquilo”, conta-nos a antiga treinadora e coordenadora do Atlético.
Praticamente todos os países da região estão a sofrer danos colaterais, na sequência dos ataques perpetrados pelos iranianos às bases aéreas que os Estados Unidos plantaram na região. Dizem os especialistas ocidentais que o fogo que ameaça Israel e os países limítrofes também tem origem nos proxys iranianos, nomeadamente o Hezbollah, sediado no Líbano, e os Houthis, grupo político e militar rebelde que controla grande parte do norte do Iêmen.






































