Vitória made in Fátima

O número impressiona, mas já não surpreende quem conhece o caminho percorrido pelo CD Fátima. Dos 23 jogadores que compõem o atual plantel, 16 passaram pela formação do clube. São praticamente 70%. E, na histórica vitória sobre o Académico de Viseu, 14 dos 20 nomes inscritos na ficha de jogo tinham crescido de grená vestido.

A expressão «Made in Fátima» ganhou força depois da eliminação de uma equipa da I Liga. Mas seria injusto reduzir esta história a uma tarde de Taça. Aquilo que se viu no Estádio Papa Francisco é o resultado de um caminho iniciado muitos anos antes e de uma opção que o clube nunca quis abandonar.

Muitos dos jogadores que hoje compõem a equipa principal pertencem a uma verdadeira geração de ouro da formação fatimense. Cresceram numa altura em que o Fátima conseguiu colocar os seus principais escalões nos campeonatos nacionais e vários deles conheceram muito cedo a exigência de competir acima da realidade distrital. Em 2021, quando o clube preparava a reconstrução, 20 dos 21 jogadores do plantel sénior tinham passado por momentos marcantes da formação fatimense, entre subidas e participações nos Nacionais de sub-15, sub-17 e sub-19.

Depois veio a travessia para o futebol sénior. O período em que o futebol nacional esteve entregue à Fátima SAD terminou mal e deixou o clube profundamente marcado. Seguiu-se uma reconstrução a partir das bases, praticamente do zero, recuperando uma equipa sénior assente nos jogadores da casa.

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Nuno Kata foi uma das figuras dessa reconstrução. Quando o Fátima reativou a equipa sénior sob a sua responsabilidade, em 2021, encontrou miúdos que conhecia bem e começou a lançá-los num futebol de homens. Alex Silva tinha apenas 17 anos e ainda era júnior.

Na temporada seguinte, o projeto deu o primeiro grande fruto. O Fátima sagrou-se campeão da 2.ª Divisão Distrital em 2021/22, com vários dos atuais jogadores a assumirem já papéis importantes. Tomás Silva fazia parte desse grupo. Lucas Russo e Martim Santos tinham apenas 17 anos, Alex Silva 18 e Diogo Gonçalves 19.

Kata saiu depois para a União da Serra. Seguiram-se Mário Nelson e, durante a temporada 2022/23, Gonçalo Carvalho. Mudaram os treinadores, mas não mudou a essência.

Com Carvalho, aquela geração continuou a crescer. Em 2023/24, o Fátima sagrou-se campeão da 1.ª Divisão Distrital e conquistou a Supertaça, regressando ao Campeonato de Portugal. No onze do jogo que confirmou o título estavam, entre outros, Tomás Silva, Martim Santos e Lucas Russo.

A subida não levou o clube a desfazer aquilo que tinha construído para procurar uma equipa nova. Pelo contrário. Treze campeões continuaram para a aventura no Campeonato de Portugal e os reforços chegaram para acrescentar qualidade a uma base que permanecia praticamente intocável.

Na primeira época de regresso aos Nacionais, o Fátima chegou à fase de subida à Liga 3. Na temporada seguinte garantiu novamente a permanência. E, em 2026, Kata regressou para encontrar muitos daqueles miúdos que tinha ajudado a lançar já transformados em jogadores feitos.

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Há um nome que atravessa praticamente toda esta reconstrução: Nuno Laranjeiro.

O antigo futebolista profissional terminou a carreira precisamente no Fátima e fez a transição para diretor desportivo. Depois do colapso do anterior projeto, regressou em 2021 para assumir novamente essas funções. Desde então, tem estado no centro das decisões desportivas, na escolha dos treinadores e na construção dos plantéis.

Laranjeiro conhece bem o outro lado do futebol. Natural do Caneiro, cresceu entre as camadas jovens de CD Vilarense, CA Ouriense, Sporting CP e União de Leiria. Foi na Cidade do Liz que atingiu outra dimensão, tornando-se internacional jovem por Portugal, sendo também o oureense com mais jogos no escalão máximo do futuebol português. De longe.

Jogou durante vários anos no principal escalão, sobretudo ao serviço da União de Leiria e do Leixões, mas em Fátima ajudou a construir um modelo quase no extremo oposto dos projetos sustentados em grandes investimentos: aproveitar aquilo que existe em casa, acrescentar criteriosamente e permitir que os jovens tenham espaço para crescer.

Não é apenas uma consequência da escassez de recursos. Naturalmente, a realidade financeira condiciona as opções do clube, mas a aposta na formação tornou-se novamente parte da identidade do CD Fátima. E os resultados tornariam difícil abdicar dela mesmo que os recursos fossem outros.

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Outro dado revelador: até o coletivo Ultras 66 é maioritariamente composto por elementos criados no seio do Campo João Paulo II. “De uma cidade com história, nasce um clube com glória”, leu-se no tifo criado exclusivamente para este jogo e orgulhosamente exibido antes e depois do mesmo. Domingo, a claque voltou a agrupar-se e a equipa respondeu a esta manifestação de apoio com uma vitória para a história.

O próprio Laranjeiro explicava, já em 2025, que 14 jogadores do então plantel tinham passado pela formação fatimense. Era a equipa mais jovem do Campeonato de Portugal, com uma média de 21,47 anos, e estava a lutar pelo acesso à Liga 3. A juventude não era um obstáculo ao rendimento. Era uma das razões do sucesso.

A direção tem protegido essa matriz. O Fátima está ainda muito escaldado pelos aventureirismos de um período negro da sua história recente e encontrou na formação uma forma de reconstruir não apenas uma equipa, mas também uma identidade. Em vez de atalhos, escolheu crescer com os seus.

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É por isso que os números deste domingo valem mais do que a curiosidade estatística. Dos 23 jogadores do atual plantel, apenas sete não passaram pela formação do Fátima: Francisco Moura, Jhonatan Santos, Bruno Beato, Zé Salvador, Ryan Omrani, Diogo Conceição e Rodrigo Conceição. Todos os outros, em diferentes momentos dos respetivos percursos, vestiram a camisola do clube antes de chegarem à equipa principal dos fatimenses.

Contra o Académico de Viseu foram 14 em 20. Cinco começaram de início e nove estavam no banco. E até o momento que decidiu a eliminatória teve assinatura da casa. Quim Zé correu atrás de uma bola que parecia perdida, recuperou-a e serviu Lucas Russo. O avançado, que tinha 17 anos quando ajudou o Fátima a ser campeão da 2.ª Distrital, marcou agora o golo que eliminou uma equipa da I Liga.

Cinco anos depois, aqueles miúdos já não são uma promessa da formação. São o Fátima. Sempre foram.

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Jornal local e regional, especializado em informação desportiva do Concelho de Ourém.

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