A segunda edição da ACURETO Backyard Ultra levou praticamente uma centena de atletas de vários pontos do país até Toucinhos e voltou a transformar esta localidade da freguesia de Alburitel num ponto de encontro das ultradistâncias. Durante dois dias, participantes, equipas de apoio, familiares e grande público deram outra dimensão à aldeia e a um evento que começa a conquistar o seu próprio espaço no calendário da modalidade.
“Acredito que conseguimos organizar um evento de excelência.” O balanço é de André Pereira, mentor da iniciativa, citado na edição de 11 de setembro do Notícias de Ourém, a destacar o trabalho desenvolvido para responder às exigências muito particulares de uma Backyard Ultra.
“Tentámos preparar tudo ao mínimo detalhe para proporcionar o máximo de conforto e bem-estar a todos os atletas, no contexto de uma prova de extrema dureza”, revelou.
A dureza começa no próprio conceito. Numa Backyard Ultra não existe uma distância previamente estabelecida, nem uma hora prevista para a chegada. Existe um circuito de 6,706 quilómetros e uma regra tão simples quanto implacável: há uma nova partida a cada hora.
Cada participante dispõe de 60 minutos para completar a volta. Quem demora 45 pode utilizar os 15 minutos restantes para descansar, comer ou recuperar. Mas, quando chega a hora seguinte, todos os atletas ainda em prova têm obrigatoriamente de estar novamente na linha de partida.
E tudo recomeça.
Quem não completa o circuito dentro dos 60 minutos é eliminado. O mesmo acontece a quem termina a volta dentro do tempo, mas não consegue apresentar-se para a partida seguinte. Não vence necessariamente quem corre mais depressa, mas quem consegue continuar a correr quando os outros já não conseguem responder a mais uma partida.
Em Toucinhos, o relógio voltou 28 vezes ao ponto de partida. Mickael Reis, atleta oureense de Lagoa do Furadouro, foi quem resistiu mais tempo e completou 28 voltas, acumulando qualquer coisa como 187,768 quilómetros, durante 28 horas consecutivas. Carolina Francisco foi a mais resistente, no sector feminino, com 12 voltas acumuladas.
Para ser declarado vencedor de uma Backyard Ultra, porém, não basta sobreviver aos restantes concorrentes. Depois de ficar sem adversários, o último atleta tem ainda de completar sozinho mais uma volta dentro do limite de uma hora. Mickael cumpriu-a e colocou um ponto final numa corrida que tinha começado mais de um dia antes.
O vencedor não é propriamente um estranho a aventuras desta dimensão. Pelo contrário: Mickael Reis já completou, entre outros desafios, os 281 quilómetros da PT281+, em 53 horas e 33 minutos, além de acumular experiência em Backyard e outras ultramaratonas.
As 28 voltas não foram suficientes para derrubar o recorde estabelecido na primeira edição da prova. Em março de 2025, Bruno Castro chegou às 33, marca que continua como referência máxima da ACURETO Backyard Ultra.
André Pereira acredita que as condições enfrentadas pelos participantes na edição deste ano, ajudam a explicar por que razão o recorde resistiu. “O desempenho dos atletas foi condicionado pelas temperaturas elevadas e acredito que, noutras condições, o recorde teria sido batido”, considerou.
A experiência deixa também pistas para o futuro. “É um fator que vamos rever. Estamos a pensar na terceira edição. Não está garantida, mas queremos muito dar continuidade. Estamos a pensar em março ou abril de 2027, com algumas alterações para proporcionar maior conforto aos atletas”, revelou o responsável.
“Tivemos cerca de uma centena de participantes e conseguimos organizar uma prova de excelência, graças a uma grande equipa”, destacou André Pereira, agradecendo o contributo de ACURETO, Município de Ourém, Junta de Freguesia de Alburitel e patrocinadores.
Mais do que as 28 horas de corrida ou os quase 188 quilómetros percorridos pelo vencedor, a segunda edição voltou a mostrar a capacidade do evento para mobilizar Toucinhos. Aos praticamente 100 atletas juntaram-se familiares, equipas de apoio, organização e visitantes, levando centenas de pessoas à localidade ao longo do fim de semana.
Há ainda uma aparente contradição que ajuda a explicar o crescimento deste formato. É uma competição em que, inevitavelmente, todos menos um acabam eliminados, mas o ambiente em redor da prova está longe de viver apenas da rivalidade.
“O Backyard é uma modalidade peculiar, mas muito familiar, marcada pela união e confraternização. Nunca faltou apoio aos atletas ao longo daquelas horas todas. Tivemos sempre gente na linha da meta. Tivemos voluntários a garantir apoio na base onde os atletas paravam para descansar e abastecer. Também tivemos um bar a funcionar em permanência. E mesmo em prova, os atletas revelaram sempre grande espírito de união entre todos”, resumiu André Pereira.
Especialista em ultradistâncias, André Pereira venceu em 2021 a Portugal 1001 Ultra Marathon, entre Chaves e Sagres, e percorreu dois anos depois os 738 quilómetros da Estrada Nacional 2. A experiência no conceito Backyard Ultra, está na génese desta prova agora realizada em Toucinhos.
“Precisava de preparar a minha participação numa Backyard e lembrei-me que podia perfeitamente organizar uma prova aqui em Toucinhos, para me ajudar nessa preparação. Em conversa com um elemento da direção da ACURETO, falei nisto e as coisas avançaram graças à direção do clube, que acolheu muito bem esta minha ideia”, conta André Pereira, que já representou Portugal num Mundial de Backyard Ultra.
A ACURETO, Associação de Cultura e Recreio de Toucinhos, fundada em 1981, abraçou o desafio. E a primeira edição, realizada em 2025, valeu uma nomeação para Evento Desportivo do Ano para o Município de Ourém, “pelo impacto desportivo, social, económico e associativo provocado na localidade”.


























