Há imagens que explicam melhor a dimensão de um evento do que qualquer número. Minutos antes da partida do primeiro Granfondo Ourém-Fátima, a longa reta de acesso ao Parque da Cidade, pelo Carregal, transformou-se num mar de ciclistas. Vista do ar, praticamente desaparecia o asfalto: centenas e centenas de bicicletas preenchiam a estrada, perfiladas à espera do sinal de partida. Horas depois, seria naquele mesmo lugar que estaria instalada a meta.
Foi talvez a imagem mais poderosa de um fim de semana que surpreendeu pela escala. «Uma iniciativa que excedeu as nossas melhores expectativas!», reconheceu Luís Albuquerque nas redes sociais. O presidente da Câmara Municipal de Ourém apontou para cerca de 1500 ciclistas e destacou uma prova que passou junto de alguns dos principais produtos turísticos do território.
Os números ajudam a explicar o entusiasmo. Tal como o Derby tinha antecipado, a organização registara cerca de 90% de participantes provenientes de fora do concelho e estimava que, juntando acompanhantes e famílias, o evento pudesse trazer aproximadamente três mil visitantes a Ourém. A própria Câmara Municipal fala em mais de 1400 participantes e realça o impacto turístico e económico da iniciativa.
E os efeitos começaram a sentir-se ainda antes do tiro de partida. Durante o fim de semana, bicicletas, equipamentos de várias equipas e participantes vindos de diferentes pontos do país tornaram-se presença constante na cidade. No domingo, o Parque da Cidade e toda a zona envolvente concentraram grande parte de um movimento que depois se espalhou pelas estradas do concelho.
A génese do Granfondo Ourém-Fátima tem, porém, um nome incontornável: Alice Neves.
A presidente da Estrela Desportiva Ouriense e responsável pela ORION foi quem lançou a Manuel Zeferino o desafio de trazer um Granfondo a Ourém. A ideia encontrou na experiência da BikeService a capacidade para crescer e chegou depois à Câmara Municipal, que decidiu apoiar a realização do evento.
O objetivo nunca foi apenas juntar ciclistas. O percurso foi desenhado para levar quem vinha de fora a conhecer o território, cruzando diferentes localidades e alguns dos locais mais emblemáticos do concelho. Fátima, o Castelo de Ourém e o Agroal fizeram parte de uma jornada que procurou juntar ciclismo, turismo e promoção territorial, à boleia de um evento que percorreu todas as freguesias do concelho.
Havia também uma aposta económica. Com a esmagadora maioria dos participantes a chegar de outros pontos do país, muitos acompanhados pelas famílias, hotéis, restaurantes e comércio local receberam durante o fim de semana uma procura diretamente associada ao evento.
Ourém conhece bem as imagens do grande ciclismo. Já recebeu chegadas da Volta a Portugal e até da Vuelta a España. O que tornou este domingo diferente foi a natureza do espetáculo: desta vez não havia apenas milhares de pessoas para ver passar os ciclistas. Eram os próprios participantes, cerca de 1500, que formavam o pelotão e levavam a dimensão do evento a praticamente todo o território.
Alice Neves viu assim concretizar-se um projeto que começou com um desafio e rapidamente ganhou outra escala. Da criação da ORION ao Troféu de Seiça e agora ao Granfondo Ourém-Fátima, o ciclismo tem conquistado um espaço crescente no panorama desportivo do concelho.
A resposta encontrada nesta primeira edição parece ter dissipado muitas das dúvidas que naturalmente acompanhavam uma estreia desta dimensão. E a reação pública de Luís Albuquerque é elucidativa: o resultado ultrapassou aquilo que a própria autarquia colocava entre as suas melhores expectativas.
Falta agora fazer contas, ouvir participantes, organização e agentes económicos e perceber com maior precisão aquilo que ficou em Ourém depois da passagem deste enorme pelotão. Certo é que o Município consignou 60 mil euros no apoio à organização, um valor residual tendo em conta o retorno esperado e a projeção mediática alcançada por um evento que levou o nome de Ourém e Fátima muito para além das fronteiras do concelho.
A primeira edição ainda não tinha arrefecido e Manuel Zeferino já deixava uma porta aberta para o futuro. Na publicação em que Luís Albuquerque assumiu que o Granfondo excedera as expectativas, o responsável da BikeService agradeceu a confiança do autarca e resumiu o domingo em poucas palavras: «Foi um dia memorável.» E, no meio dos agradecimentos, deixou já uma ‘meia-notícia’ em forma de desejo: «Até para o ano.»

























