A Taça de Portugal já levou o Fátima a Alvalade, colocou-o a um penálti de surpreender uma equipa da I Liga na Madeira e até produziu o impensável: permitir que um adversário eliminado pelos próprios fatimenses regressasse à competição e, algumas semanas depois, eliminasse quem o tinha afastado. Este domingo, há mais uma data para acrescentar a uma história iniciada em 1983.
Frente ao FC Vinhais, no Estádio Papa Francisco, o CD Fátima chega aos 95 jogos na prova rainha do futebol português. São quatro décadas de uma relação onde não faltam episódios para contar.
O primeiro aconteceu a 5 de outubro de 1983. Na estreia absoluta na Taça de Portugal, o Fátima deslocou-se ao terreno do Febres e venceu por 2-1, num jogo marcado pelo falecimento de um jogador fatimense, Vítor Bernardes, vítima de um acidente de viação, nas vésperas do desafio. Aquela primeira aventura estava longe de terminar ali.
O Sporting Ideal também ficou pelo caminho e seguiu-se uma eliminatória bem mais longa diante do Santacruzense. O empate 2-2 na Madeira obrigou à realização de um jogo de desempate, do qual o Fátima voltou a sair por cima.
Só o Olhanense colocou um ponto final naquela estreia, a 29 de janeiro de 1984, por números esclarecedores: 8-0 para os algarvios. Estavam disputados os primeiros jogos de um percurso que, 43 anos depois, está prestes a chegar aos 95.
Talvez nenhuma dessas partidas tenha, porém, deixado uma história tão saborosa como a visita ao antigo Estádio José Alvalade, em 1992/93, pese embora a eliminação. O Fátima chegou aos oitavos de final e encontrou um Sporting treinado por Bobby Robson e com nomes como Luís Figo, Balakov, Jorge Cadete e Iordanov.
O que parecia uma tarde destinada a cumprir calendário demorou três minutos a transformar-se numa dor de cabeça para os leões. Palecas marcou logo aos 3 minutos e colocou o Fátima em vantagem em pleno Estádio José Alvalade.
A resposta foi forte e a baliza de Luís Albuquerque, atual presidente da Câmara de Ourém, passou a estar sob fogo. Balakov empatou (6′) e Jorge Cadete consumou a reviravolta praticamente a seguir (7′), antes de voltar a marcar ainda na primeira parte (36′). O Sporting venceu por 3-2 e seguiu em frente. Mas ganhar não chegou para deixar Bobby Robson satisfeito. Irritado com a exibição da sua equipa perante o Fátima, o treinador inglês decidiu que a tarde ainda não tinha acabado para os jogadores leoninos.
Depois do jogo, perante o espanto dos adeptos que permaneciam nas bancadas, Figo e companhia tiveram treino de castigo e foram obrigados a correr à volta do relvado. O Fátima saiu eliminado de Alvalade, mas tinha conseguido algo pouco habitual: transformar uma vitória do Sporting num castigo para quem a conquistou.
Outra grande oportunidade de chegar aos oitavos surgiu em 2009/10. Desta vez, o palco foi a Choupana e o adversário era o Nacional da Madeira, então no principal escalão do futebol português. No banco do Fátima estava Rui Vitória.
E esteve muito perto de acontecer surpresa. Nuno Sousa dispôs de uma grande penalidade ainda durante a primeira parte, mas Bracalli defendeu. Mais tarde, o Fátima ficou reduzido a dez jogadores, mas resistiu durante os 90 minutos e todo o prolongamento.
Ao fim de 120 minutos continuava tudo como começara: 0-0. Só os penáltis conseguiram separar uma equipa da I Liga e o Fátima. O Nacional venceu por 4-3 e avançou para os oitavos, depois de uma eliminatória em que os fatimenses chegaram a ter nos pés a possibilidade de decidir o jogo.
Mas para encontrar uma das histórias mais improváveis deste longo percurso é preciso avançar até 2019. E esta parece saída precisamente do imaginário que tornou a Taça famosa. Na 1.ª eliminatória, o Fátima defrontou o Marinhense. Depois de um empate, venceu no desempate por grandes penalidades e eliminou a equipa da Marinha Grande. O Marinhense estava fora da Taça. Ou, pelo menos, deveria estar.
O regulamento permitiu uma repescagem e o Marinhense foi uma das equipas contempladas. Regressou à competição, eliminou o Montalegre na ronda seguinte e o sorteio da 3.ª eliminatória encarregou-se do resto: Marinhense-Fátima. Outra vez.
Desta vez venceram os da Marinha Grande, por 1-0. Assim, na mesma edição da Taça de Portugal, o Fátima eliminou uma equipa e acabou eliminado… precisamente por essa equipa.
A situação provocou a indignação da direção fatimense. O (ainda) presidente, padre António Martins Pereira, classificou o caso como um «contrassenso» e contestou publicamente um modelo que permitia a duas equipas voltarem a encontrar-se depois de uma delas já ter eliminado a outra.
Alvalade, a resistência na Madeira, o insólito na Marinha Grande. São apenas três episódios entre muitos de uma história feita de 94 jogos e iniciada numa tarde de outubro de 1983.
Este domingo, o contador chega aos 95. O FC Vinhais visita o Estádio Papa Francisco para disputar a 2.ª eliminatória, naquele que será o primeiro confronto entre os dois clubes na história da Taça de Portugal.






















