Fátima elimina Académico na magia da Taça de Portugal

O relógio aproximava-se dos 90 minutos e o Estádio Papa Francisco começava a acreditar. Não apenas que o Fátima podia levar um adversário da I Liga para prolongamento, mas que talvez ainda houvesse espaço para algo maior. Houve. Lucas Russo marcou aos 84 minutos, o Fátima venceu o Académico de Viseu por 1-0 e assinou uma das grandes surpresas da 3.ª eliminatória da Taça de Portugal.

Foi uma vitória construída com inteligência, enorme disciplina e uma leitura perfeita do jogo por parte de Nuno Kata. Durante muito tempo aconteceu pouco. Depois apareceu Martim Santos para incendiar uma partida adormecida, Quim Zé recusou dar uma bola por perdida e Lucas Russo fez aquilo que se pede a um ponta de lança. Três protagonistas de uma tarde que Fátima dificilmente esquecerá.

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Kata tinha preparado o encontro consciente da diferença de argumentos. Ryan Omrani, que ainda não tinha sido titular esta temporada, entrou no onze para reforçar um meio-campo mais povoado, pensado para retirar espaço à equipa de Bruno Pinheiro e impedir que a qualidade individual dos viseenses encontrasse terreno para se expressar.

A estratégia funcionou. O Académico teve naturalmente mais bola e maior ascendente territorial durante a primeira parte, mas quase nunca conseguiu transformar esse domínio em perigo. O Fátima fechou espaços, manteve as linhas próximas e obrigou o adversário a jogar quase sempre longe da baliza de Evans Tetteh.

Durante meia hora, praticamente nada aconteceu junto das duas balizas. E quando surgiu o primeiro verdadeiro sinal de perigo foi o Fátima a criá-lo, com Rodrigo Conceição a obrigar Marcos Lavín a uma intervenção de qualidade.

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Aos 37 minutos ficou também o lance mais polémico da primeira parte. Diogo Gonçalves caiu na área após um empurrão do adversário, mas Gonçalo Neves mandou seguir. Pouco depois, já a meio-campo, o árbitro assinalaria uma infração semelhante cometida por Jonathan Santos.

O 0-0 ao intervalo traduzia uma primeira parte morna, mas também confirmava que o plano do Fátima estava a resultar. O Académico tinha o jogo, mas não tinha oportunidades. E quanto mais o relógio avançava, mais confortável parecia a equipa do Campeonato de Portugal naquele cenário.

A segunda parte trouxe mais energia, embora durante alguns minutos permanecesse a sensação de que nenhuma das equipas estava particularmente incomodada com a possibilidade de jogar mais meia hora. O ritmo não aumentava significativamente e o encontro parecia encaminhar-se, sem grande resistência, para o prolongamento.

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Até Nuno Kata lançar Martim Santos (63′). A entrada do jovem extremo mudou o jogo. Martim entrou sem respeitar a letargia que se tinha instalado, acelerou, procurou adversários, levou a bola para a frente e obrigou o Académico a recuar. Num encontro que pedia alguém disposto a quebrar o guião, foi precisamente isso que fez.

Num dos seus primeiros grandes avisos, disparou de longe com o pé esquerdo e obrigou Marcos Lavín a uma excelente defesa para canto. A bancada acordou. O Fátima acreditou. E, por arrasto, um jogo que parecia resignado ao prolongamento partiu definitivamente.

Aos 74 minutos entrou Lucas Russo e, praticamente de imediato, teve nos pés a melhor oportunidade da partida até então. Um cruzamento rasteiro da esquerda atravessou a área e encontrou o avançado à boca da baliza, mas Russo trocou os pés e não conseguiu finalizar.

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O Académico ainda respondeu. Aos 79 minutos, um remate cruzado obrigou Tetteh a uma defesa incompleta e Jonathan Santos apareceu sobre a linha de golo para evitar o 0-1. Pouco antes, Bruno Pinheiro já tinha recorrido a André Clóvis, melhor marcador da II Liga na temporada passada, numa tentativa de encontrar a solução que os jogadores escolhidos para o onze não tinham conseguido oferecer.

Clóvis teve-a aos 82 minutos. Surgiu ao segundo poste com condições para marcar, mas embrulhou-se com a bola e nem sequer conseguiu rematar. Foi a última grande ameaça viseense.

Dois minutos depois, apareceu Quim Zé.

O médio já levava 84 minutos nas pernas, mas correu atrás de uma bola que parecia perdida sobre a direita como se o jogo tivesse acabado de começar. Recuperou-a, avançou para a área e ainda teve discernimento para não precipitar a decisão. Levantou a cabeça e serviu Lucas Russo com um passe atrasado e rasteiro.

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Desta vez, Russo não perdoou. Rematou de primeira, quase como quem bate uma grande penalidade, e não deu qualquer possibilidade a Marcos Lavín. O Papa Francisco explodiu (84′).

O golo premiava também uma exibição enorme de Quim Zé. Incansável no meio-campo, com um pulmão impressionante e uma disponibilidade permanente para disputar cada lance, foi precisamente a recusa em desistir de uma bola aparentemente perdida que abriu a porta para o momento mais importante da tarde.

Esperava-se então a reação desesperada de uma equipa da I Liga. Ela praticamente não existiu.

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O Académico já vinha dando sinais claros de desgaste físico. Rúben Pereira chegou a ficar caído com cãibras e pediu ao banco uma pequena garrafa com um líquido para ajudar a aliviar o problema. Depois de beber, passou-a a Pedro Barcelos, que também acusava dificuldades físicas. Uma imagem elucidativa do desgaste de uma equipa que, já perto do fim, parecia ter poucas pernas para lançar um verdadeiro assalto à baliza fatimense.

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O Fátima não passou os últimos minutos encostado às cordas. Controlou-os. O adversário que precisava desesperadamente de marcar não conseguiu criar uma oportunidade clara para evitar a eliminação.

Quando Gonçalo Neves terminou o encontro, confirmou-se aquilo em que poucos poderiam acreditar antes do apito inicial. Uma equipa do Campeonato de Portugal acabava de eliminar uma formação da I Liga.

Nuno Kata ganhou a batalha estratégica, Martim Santos mudou a energia do jogo, Quim Zé recusou desistir e Lucas Russo assinou o momento que ficará para a história.

Vinte e um anos depois, Fátima e Académico de Viseu voltaram a encontrar-se. Valeu a pena esperar.

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Jornal local e regional, especializado em informação desportiva do Concelho de Ourém.

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